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Perspectivas & Olhares na planície

Perspectivas & Olhares na planície

Rendeiro, nada disso! João Proprietário!

1. O Fernando Pessoa confessava no seu Livro Desassossego que: 《O dinheiro é belo, porque é uma libertação.

Querer ir morrer a Pequim e não  poder é das coisas que pesam sobre  mim como a ideia dum cataclismo próximo.

O ex-banqueiro João Rendeiro não partilha a mágoa com o poeta dos vários heterónimos!

Dizem que está em Belize ou em Singapura. A mulher ao que parece,  fala com o esposo todos os dias e que estará na África do Sul. Eu aposto que está em Pequim. Pisar o chão da muralha da China é como descalçar os sapatos e sentir a  simplicidade da vida; algo que alguém com o apelido Rendeiro persegue desde pequenino: sentir a simplicidade com muitos milhões distribuídos em várias contas bancárias em offshores. 

O primeiro advogado não queria saber onde estaria o seu cliente, pois falava com ele horas a fio — a esposa devia estar contente, ao menos sabia com quem falava ao telemóvel nos últimos dias —, e estaria contactável, mas para ele,  porque para a justiça portuguesa é um indivíduo que escreve recados: "Estou no estrangeiro e não vou voltar".

Desculpe, intrometer-me mas, ontem eu é que estive no estrangeiro e voltei. Eu tenho um autocarro de primas no estrangeiro e voltam sempre. O menino insolente João Rendeiro é um fugitivo à justiça que fugiu para o estrangeiro. Fugiu,  não está simplesmente. É um pormenor que se evidência no meio de tantos detalhes. 

O João Proprietário, engaiolou o Rendeiro, não tem nada que o prenda a Portugal, excepto a cela do estabelecimento prisional que lhe está destinado. Ou seja, é filho único, não tem os pais vivos, não tem filhos, a esposa está em Portugal,  (estaria sempre a horas de marchar para junto do seu querido esposo, caso não tivesse sido apanhada em flagrante com as valises e uns quadritos dentro do carro pronta a ir "a salto" para junto do marido); e o que é  mais caricato:  a realizar viagens para vários países, com um processo a transitar em julgado, não é preciso ser-se diplomada pelas melhores universidades para a urgência da juíza presidente juntar às outras medidas de coação que tem, a ordem de entrega do seu passaporte, consequente proibição de ausentar-se do país. 

“Nada fazia prever que havia perigo de fuga”, porém a juíza admitiu que o Arguido estava a dificultar e mesmo a ser displicente no cumprimento das medidas que estavam em vigor no seu estatuto coactivo: “contornou ostensivamente” a obrigação legal de informar sobre o lugar onde poderia ser encontrado, limitando-se a informar que podia ser contactado nos consulados portugueses na Costa Rica (onde esteve em agosto) e no Reino Unido (onde alegadamente esteve desde o dia 12 de setembro)

O sistema de Justiça português é lento, bem sabemos, porém em vez de resolver o caso, cria casos, casinhos dentro do principal caso que foi submetido a tribunal.  Exemplo deste modus operandi é a saga em torno das obras de arte arrestadas, que volvidos quinze anos a Senhora Rendeiro continua fiel depositária; em que algumas delas desapareceram,  pois foram vendidas e mais grave há suspeita de algumas serem cópias falsificadas do original.  Não é de admirar alguém com tanta astúcia com a especial ajuda da lentidão da justiça alegadamente ter vendido e/ou levado consigo os quadros originais e ficar para o Senhor encarregado de as ir buscar para pagar indemnizações aos lesados levar uma falsificação. Com tanto tempo para se julgar,  posterior contestação das penas para retardar o objectivo de a sentença transitar em julgado e consequente condenação para cumprir a pena emanada pelo juiz, o ex-Rendeiro agora Proprietário de apelido teria tempo de sobra para mandar falsificar toda a sua colecção de arte e desaparecer com a colecção original.  Será caso para dizer que não foi muito ganancioso e deixou ainda muita coisa arrestada com o comprovativo que testam a sua originalidade.  

 

2. O canal de notícias CNN Portugal estreou e com essa estreia criou um astro no mundo do humor. A entrevista a cada minuto que ia passando, mais interessante se tornava a rábula.  O Herman José deve começar a ter medo de ser secundarizado pelo treino criativo que o ex-banqueiro tem para escrever momentos de verdadeiro humor. "Durmo bem. Mas tenho saudades das cadelinhas." Como o compreendo.  As cadelas coitadas assistem às conversas, inclusive saberão onde está a dormir bem, mas não conseguem falar.  Foi pena a Maria e o João não se terem perdido de amores por papagaios! Sempre podiam dizer ao Inspector da Polícia Judiciária qual o país que tem uma cama fazedora de boas noites de sono. 

Disse nessa entrevista rocambolesca que só volta a Portugal ilibado ou com indulto do Presidente da República, para além de ter dito que não é poderoso como o Ricardo Salgado e por isso anda às compras e vai à praia livremente,  só que não é em Lisboa como o seu colega de trapaças.

Pois é,  meu caro, o nome de família ainda faz livrar da prisão muito frequentador do Baile da Rosa. O Rendeiro é rico mas não nasceu no tal berço de ouro, por isso, é sempre alguém que enriqueceu e ascendeu socialmente nada mais. Um burguês que foi comprando tudo o que podia, excepto o estatuto social de quem nasce com a notoriedade de um apelido construído durante várias gerações. 

Na entrevista deu para viver todos os estados emocionais parecia que estávamos nos Açores, num único dia se pode vivenciar as quatros estações do ano. A esposa está com pulseira electrónica por um erro do advogado, pois não devia ser já fiel depositária das obras de arte, no entanto, não vem em seu socorro. Está como disse: no seu cantinho, dedicada às cadelinhas como gosta, ter pulseira electrónica não faz diferença, assim como assim não gosta muito de viajar... 

Um dos momentos altos foi culpar o advogado de ter idealizado o plano de fuga.  A cabeça de Rendeiro a ser assolada por muitos relâmpagos, espero que o pára-raios tenha funcionado.

O advogado,  o tal que falava todos dias com o ex-banqueiro, negou tudo. Obviamente. Esta querela nasce por ciúmes de protagonismo.  Ora se o tal advogado não se tivesse deslumbrado com a hipótese de ter um cliente famoso, começou a brilhar mais do que o seu cliente e o seu cliente com ciúmes de ter menos destaque na comunicação social, fez birra e puxou-lhe o tapete do palco mediático. É preciso saber andar na passadeira vermelha destes espécimes que construíram as suas fortunas com as carteiras e bolsos dos outros que tiveram o azar de serem manipulados.  O tal advogado não tem pés para calçar os sapatos que este modelo de gente oferece para "calçar". 

O canal de notícias CNN Portugal iniciou as suas transmissões a reforçar a tristeza de espectáculo que os mais "altos funcionários" da justiça patrocinaram. Que continuam a patrocinar, é certo!

Incrivelmente, para reconstruirem os últimos passos, investigaram um João Rendeiro errado: "Juíza recebeu reservas de cinco viagens de avião em nome de João Rendeiro e desconfiava que este teria usado moradas falsas em todas. Contudo, afinal, segundo apurou o NOVO, nalgumas não se tratava do mediático foragido."

A justiça portuguesa está cheia de sombras, mas não é por falta de legislação – apesar de as penas previstas para todos os tipos de crimes precisarem de serem revistas, inclusive a pena máxima de 25 anos–, é sim por causa dos que deviam fazer a justiça carburar sem solavancos, desenham sombras à medida dos homens ricos e dos homens pobres. Os juízes não têm meios logísticos e recursos humanos de apoio, contudo, por vezes o que existe é a diferente capacidade de organização e empenho que despendem  estando sempre associado o critério da classe social. O homem rico estica o processo como de um elástico se tratasse. Os homens e mulheres que laboram na justiça contribuem e muito para este status quo. É fácil de perceber que os elásticos não estão ao alcance de todos: um processo de um arguido pobre é rapidamente julgado,  os recursos interpostos a discordar são menos ou não existem, o processo não anda em trânsito pelos vários tribunais e assim transita em julgado e dá lugar ao cumprimento de pena. São estas as sombras que ensombram a forma como se pratica a justiça em Portugal.  Os ministros da justiça pouco ou nada têm feito para estancar esta sangria de injustiça. O poder judicial não pode ser politizado, todavia tem estado ao serviço dos medíocres que pululam na estrada governativa e nos alçapões dos homens de negócio da nossa praça.  

O Senhor Proprietário,  que ao parece é Rendeiro, continua a monte e já não abre os telejornais tal como o nosso Almeida Garrett que ficou esquecido no tempo. A evidência está bem patente na minha incapacidade de trazer o fugitivo que gosta de táxis e taxistas para vir passar o Natal na prisão portuguesa.  Por isso, decidi trazer o grande Almeida Garrett para nos fazer companhia e tira-lo do desterro onde tem vivido nestas décadas com um excerto do poema O Carcere (parece o fugitivo na entrevista dada ao novo canal de notícias):

(...) Oh! Criminoso 

Não sou eu. Insolente me confunda

A proscripção injusta, 

N'esta mansão do crime e da vergonha

C'os malfeitores vis: dentro do peito

A consciência me diz que sou virtuoso,

Que, fiel ao rei e à pátria.

São inimigos seus quem me persegue, 

Que me honra o seu odio, me engrandece, 

Tecendo-me a coroa do martyrio

Nas immer'cidas penas.

Lisboa, no Limoeiro — Agosto, 1833.

 

 

 

 

 

 

 

 

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