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Perspectivas & Olhares na Planície

«Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.» Paulo Freire

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«Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.» Paulo Freire

Boa semana com as minhas cavacas

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Irrito-me, sim senhora. Como os provadores de serviço do Taste Atlas podem considerar as cavacas um doce do piorio? Por acaso degustaram a verdadeira cavaca ou foi dessas falsificadas que são inspirações ordinárias da crocância e caiadas com uma espécie de cobertura de claras (sem uma gota de limão)? Estou triste. As cavacas fazem parte da minha infância. Recordo com saudade feliz a tradição de comer uma cavaca, nas idas semanais à capital de distrito do Baixo Alentejo na companhia da minha Mãe.  Bonita memória que me proporcionam as cavacas. Recuei muitos anos e foi inevitável o surgir na boca a crocância a desfazer-se misturada com a cobertura ao relembrar o momento em que me deliciava à espera que a minha querida Mãe tratasse da longa lista de expediente a fazer. Depois, vem esta destruidora de boas lembranças causando stress pós-traumático ao classificar as minhas cavacas como um dos piores pratos de Portugal. Ó Taste Atlas, não mudem de fornecedores dos pratos a provar para fazer estas listas medonhas que não é preciso! 

Concordam com esta lista de pratos considerados uma purga? 

Desejo a todos vós uma semana com pelo menos uma destas iguarias a fazer parte do vosso menu semanal de refeições que antecede à Ceia Natalícia, onde se espera muita comida saudável com as "gordices" e "docices" a serem as estrelas da mesa da consoada. Não terei cavacas, não faz parte da minha tradição, durante o próximo ano, irei tentar comer uma cavaca, não terá o mesmo sabor daquelas da minha infância. No momento, fecharei os olhos, imaginerei aquelas que a minha mãe comprava sempre à mesma Senhora e ficarei com o meu coração aconchegado. A memória degustativa desvanece, por instantes, a saudade das recordações guardadas com muito amor.

A vendedora faleceu, o pasteleiro mesmo com a receita ensinada de bom agrado, o resultado nunca é o mesmo, o Mercado Municipal de Beja é um fantasma de gente que se perdeu e nunca mais regressou ou regressará, o encanto daquele mercado ficou esquecido nos cantos e recantos durante anos sem energia para incentivar à fomentação de memórias tal como as minhas. As pessoas que davam vida às bancas tiveram o fim natural do ciclo de vida, as outras que as ocuparam não conseguiram tocar no botão onde se formam as lembranças nas crianças da geração que se seguiram à minha. Tudo morre e tudo entristece mesmo quando as paredes pintadas de novo chamam e convidam a entrar, ninguém pisa aquele chão, não gostam de construir memórias. Quando forem velhos, falarão do quê em amena cavaqueira? As batatas fritas do McDonald's eram a minha perdição. Certamente, serão estes retalhos de vida na infância a reavivar. Está tudo certo.  E fica sempre tudo certo. Não há vivências de primeira, nem de segunda classes. Há vivências. As minhas são estas. 

 

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