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Perspectivas & Olhares na planície

Perspectivas & Olhares na planície

Dom | 27.03.16

Apontamentos sobre o “Alentejo Prometido” do Henrique Raposo

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Comprei o livro do Raposo, o polémico “Alentejo Prometido”, e confesso que não vi motivo para tanta celeuma. Há partes realistas, há conjeturas (e de algumas discordo), e há factos com os quais me identifico, mas que não penso que possam ser imputados a uma “cultura alentejana”.

Para começar é difícil perceber o que é ser alentejano, ou algarvio ou beirão em 2016. Se há 50 anos atrás havia grandes diferenças entre os habitantes das várias regiões do país, hoje elas são quase irreconhecíveis… vemos os mesmos programas de televisão, aprendemos na escola pelos mesmos Programas, poucos são os que vivem confinados à região em que nasceram (alguns porque necessitam trabalhar noutras regiões, outros porque mesmo sem necessidade preferem fazê-lo). Hoje cada vez mais somos cidadãos do mundo.

 Há alguns pontos que considero importantes para reflexão:

Ponto um: falta de religiosidade, em geral, dos Alentejanos

Sobre os casamentos, diz o Raposo: “Ele (o padre) fala mas ninguém ouve (…) As tias estavam ali por cerimónia, não por piedade, as primas mais novas enchiam a boca num balão de tédio e dedilhavam mensagens no telemóvel com o habitual frenesim…”

 

Concordo em parte com o autor. Há, na minha opinião, uma religiosidade que não passa pela Igreja e que dá origem aos casamentos em que ninguém está a tomar atenção ao que diz o Padre ou aos funerais desumanizados, em que a dor dos familiares próximos de facto está exposta porque não há atrás um coro a rezar, (como o autor diz que acontece no Norte)… até porque a maioria nem sabe bem rezar. Se nos casamentos a situação é cómica, nos funerais este “não saber estar nas Igrejas” é até desconfortável para aqueles que perderam entes queridos. 

Ponto dois: desconfiança alentejana

Em algumas passagens o autor considera os alentejanos em geral desconfiados, daí a sua falta de união, por exemplo, em torno do clube da terra ou a pouca participação em associações de cariz social e de ajuda ao próximo, tal como elas supostamente existem mais a Norte.

Ele diz-se “não alentejano” devido a essa falta de bairrismo.

 

Eu, pessoalmente, não sou particularmente adepta de bairrismos (nem em termos clubísticos) pois são uma causa importante de conflitos e não fazem sentido num mundo cada vez mais globalizado. Também não gosto particularmente de assistencialismos e da “ajuda aos pobrezinhos”. Penso que todos nós pagamos impostos para que a generalidade das pessoas aceda pelo menos ao mínimo, sem precisar de esmolas. Não é uma questão de desconfiança mas uma visão social diferente.  

Ponto três: o Alentejo sem lei- Alentejanos orgulhosos que preferem roubar a pedir

“Herdeiros dos velhos guerrilheiros, os famosos malteses vaguearam pela planície até meados do século XX. Semi-pedintes e semi-cowboys, semi-ativistas e semi-gangsters, os malteses andavam em bando, roubavam ricos e pobres e, quando não roubavam, ameaçavam deitar fogo às colheitas”

 

Se as Instituições (policia, tribunais…) não existiam, é lógico que durante mais tempo o Alentejo fosse uma espécie de faroeste.

Os estudos judiciários publicados referem contudo que as testemunhas no Alentejo são consideradas (ou eram) mais credíveis do que as restantes porque raras vezes mentiam em tribunal, ao contrário do que acontecia em outras regiões. Isto prova que não há pelo menos desrespeito pela lei (quando ela existe)

 

Ponto quatro: ausência de passado

 “Fala-se muito da ausência de Deus para descrever o Alentejo, mas julgo que antes de tudo o alentejano define-se por esta ausência de passado. Devido ao lastro de bastardia e de violência, as famílias fecham-se num presente sem acesso ao passado.”

 

É de facto difícil fazer genealogias no Alentejo. Não minha opinião não tem a ver com tabus sobre o passado ou bastardia (porque como ele próprio refere esse facto não era particularmente negativo) mas pelo facto de existirem menos registos nas Igrejas (dada a menor relevância destas na zona) … e como se sabe em tempos idos não havia outro tipo de registo. Outros dos factores importantes é a pobreza… a luta era pela sobrevivência. Se havia fome e não havia nada a herdar, qual a relevância de fazer a árvore genealógica?!

 

Ponto cinco: cultura machista idêntica ao resto do país (violência doméstica menor)

“Como se vê, a cultura machista do sul é idêntica à cultura machista do norte. Neste sentido, de novo poderíamos supor que a violência doméstica no Alentejo só pode ter números similares aos do norte. Mais uma vez, a suposição lógica estaria errada. A esmagadora maioria dos homicídios da violência domestica- feminicídios-ocorre na Grande Lisboa e no norte; os Manuéis Palitos fazem parte da paisagem humana do norte, não do Alentejo. Quando confrontado com a traição (real ou imaginada), o nortenho mata a mulher em nome da honra; quando confrontado com a possibilidade de ser corno, o alentejano salva a honra masculina de outra forma: mata-se”

 

Aqui concordo com o autor, a cultura machista existia no Alentejo, como existia em todas as regiões do País e não só, com casamento oficial ou com uniões de facto, como refere o autor.

Ponto seis: cultura suicida

“(…) posso respeitar um alentejano que se mata, mas não posso respeitar o Alentejo que aceita esse suicídio sem sobressalto. Por outras palavras, não sou alentejano”

O autor “corta” com o Alentejo devido àquilo que denomina de “cultura suicida”, a desculpabilização do suicídio que segundo ele está presente na cultura alentejana.

É, na minha opinião, muito exagerado considerar o suicídio um traço cultural alentejano.

Os únicos dois casos de suicídio que conheço (por enforcamento) foram cometidos por homens na idade da reforma com a saúde debilitada. Não vejo aqui um facto criticável, ainda mais agora que se reabriu o tema da Eutanásia.

Pessoalmente concordo com a Eutanásia e não considero o suicídio algo reprovável (a não ser que arraste outros consigo mas aqui trata-se de homicídio) … mas penso que não será por ser alentejana. Acredito que se fizesse um referendo (sem levantar polémicos falsas como as que foram apresentadas no primeiro referendo ao Aborto) o sim à Eutanásia ganharia na generalidade do país.