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Perspectivas & Olhares na planície

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Aldeia da Luz: Nunca a compra dos submarinos fez tanto sentido…

Nunca se pensou que os dois submarinos que o Paulo Portas encomendou tivessem tanta utilidade. Baralhado? Não há necessidade, passo a desembaralhar com muito agrado: há umas semanas o programa Sexta às 9 da Sandra Felgueiras fez eco de uma situação insólita vivida pelos habitantes da nova Aldeia da Luz (ver reportagem aqui); estes cidadãos continuam a pagar o imposto municipal sobre imóveis, o popular IMI, dos terrenos e casas da antiga Aldeia da Luz, aquelas que ficaram submersas com a construção da Barragem de Alqueva. Senhor leitor está incrédulo? Vai ficar ainda mais, o insólito não fica por aqui, pois, as benditas casas foram sujeitas ao último processo de avaliação levado a cabo pelos Serviços das Finanças, em 2012, para a atualização do valor patrimonial das habitações/prédios urbanos. Recordando o nosso saudoso e admirável Fernando Pessa: E, esta hein?

Em boa hora o Paulo Portas decidiu comprar os ditos cujos dos submarinos, caso contrário como é que estas pessoas iam dormir para as suas casas debaixo de água? Durante o dia emergem, fazem a sua vidinha à superfície e, quando o sol se põe imergem e vão dormir às suas casas todas catitas inundadas de água, aquelas que pagam o IMI correspondente.

 

Estas pessoas têm passado as passas do Algarve, vivendo no Alentejo: vivem na nova Aldeia da Luz nas casas que lhes foram atribuídas com a expropriação, porém, o processo da escritura que os tornariam proprietários definitivos das casas e dos terrenos nunca aconteceu. Pagam IMI de algo que não existe, não são proprietários, nem inquilinos são, portanto, sem saber, são pertencentes ao movimento do “ocupas”, estão instalados nas casas da nova Aldeia da Luz, ilegalmente. Como pode esta situação perdurar?

 

Uma década já passou e a segunda década aproxima-se a passos largos e a situação não é resolvida, não têm peso político! São gente pacífica que não procura os holofotes das câmaras da televisão. Fazem mal! Não protagonizam distúrbios e invasões como fazem os revoltosos dos depositantes/aforradores lesados pelo BES, estes procuraram sarna para se coçar com a esperança gananciosa de mais três tostões e meio com as suas poupanças; já os habitantes da Aldeia da Luz não procuraram sarna para se coçar, a sarna foi-lhes arranjada com o “arranjinho” de protelar a anulação das cadernetas prediais referentes às casas e terrenos alagados com o enchimento do grande aquário artificial. Fazem mal, não protestarem inflamadamente! E, estranhamente, não há ninguém que se interesse em fazer pressão para que se marque as datas das escrituras das casas novas, que de novas pouco têm. Têm reclamado, ordeiramente, mas os responsáveis pelas entidades responsáveis por este estado de coisas fazem ouvidos de mercador. Porquê? Não haverá um Mário Nogueira lá no sítio para organizar manifestações ou interpor providências cautelares para que “não se navegue na área onde jaz a antiga Aldeia da Luz”? Não haverá um grupo unido e obstinado, similares aos sindicatos da TAP e/ou da CP, para que todos os dias se abanquem por turnos na marina ou no paredão da barragem, ou seja, nos sítios onde passam muitos visitantes nacionais e internacionais, com cartazes de protesto em várias línguas para informar o imbróglio em que vos meteram e demonstrar que o processo da construção da nova aldeia da luz, não é ainda um caso de sucesso, dado que falta finalizar a última fase e a mais importante: entrega das cadernetas prediais com os nomes dos titulares de cada casa atribuída na nova Aldeia da Luz. O ideal era conseguir suscitar o interesse de um canal de televisão estrangeiro para elaborar uma reportagem sobre o grande problema em que os habitantes da nova Aldeia da Luz estão “mergulhados” para envergonhar os governantes portugueses e embaraçar os responsáveis pelos organismos públicos afetos aos projetos em Alqueva.

Os silêncios têm sido geridos magistralmente pelas várias entidades responsáveis pelos projetos das infraestruturas: barragem de Alqueva e nova Aldeia da Luz, bem como, o jogo do empurra e do passa-culpas tem sido realizado com elevada qualidade de jogadores profissionais de póquer e/ou xadrez.

Todos têm o troféu da incompetência, todavia, o chefe das finanças de Mourão ganha mais um, o troféu da comicidade ou assentar-lhe-ia, melhor, o troféu do ridículo? Ora, é anedótico como alguém com o seu cargo ordenar o início do processo de avaliação tendo em vista os novos critérios de tributação do valor patrimonial dos imóveis na Aldeia da Luz, sabendo que, o que estavam a avaliar era os imóveis debaixo de água!

Se fosse eu: humildemente agarraria nos troféus e deixava a cadeira disponível e dedicava-me à plantação de batatas. Tal atitude não lhe passou pela sua cabeça, agarre nos troféus à mesma – embelezam sempre um escritório – e, ao menos, tente solucionar a situação dos pobres habitantes desesperados…

 

Nem em sonhos, o Paulo Portas imaginou que os “seus” submarinos comportariam três valências: a natural e duas invulgares. Isto é, ao serviço da Marinha Portuguesa para patrulhamento da nossa extensa costa; ao serviço dos serenos habitantes da Aldeia da Luz para habitar nas casas impecavelmente asfixiadas pela água e semear as favas e os brócolos nas terras submersas; ao serviço dos funcionários da repartição de finanças de Mourão para esclarecer in loco as dúvidas que surgiram aquando do processo de avaliação dos imóveis, uma vez que o GOOGLE ainda não disponibilizava na sua aplicação mapas subaquáticos de barragens.

Ah era imperdoável o meu esquecimento: o uso de pelo menos de um submarino ao serviço da Mãe do Paulo Portas para se fazer deslocar até ao Chiado para as suas compritas habituais. Não sei se era ironia, pareceu-me sincera a declaração meio agastada da Senhora Dona Mãe do Paulo Portas num programa de televisão, que não sabia o que fazer ao submarino estacionado na garagem do seu prédio e pensou, porque não utilizá-lo como táxi e, ao mesmo tempo, faço cócegas de inveja às minhas amigas. Sendo, assim, tem quatro valências. É lá, tantas! Mas, todas carregadas de grande sentido patriótico, de outra coisa não se esperaria de uma compra feita à Paulo Portas.

 

Despeço-me a trautear: “Eu sou o submarino irrevogável

                                      Muito inteligente, pouco recomendável

                                      Eu sou o submarino irrevogável

                                      Pouco transparente, muito maleável

                                      Lálálá...

 (“Submarino Irrevogável” de Rogério Charraz)

 

 

 

 

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