A mulher: quando a chama da vela se apaga
"Há muitas maneiras de viver. Há muitas maneiras de morrer. (...) no fim, fica apenas o deserto. Só o deserto permanece verdadeiramente vivo. "
Haruki Murakami, A sul da fronteira a oeste do sol
A turbulência gerada em torno do falecimento de uma figura pública causa perplexidade: se em vida não temos descanso, com a morte parecemos mais vivos do que nunca.
As causas da morte ficarão no baú da família. Uma ilação que esta tragédia nos convida a encarar: devemos estar atentas a quem demonstra sempre capacidade de seguir em frente e cumprir horários de trabalho. Quem não recorre à baixa psicológica. Quem desiste da vida são os que têm a rotina diária muito organizada, fazem as tarefas em piloto automático até que um dia, a decisão de nunca mais abrir os olhos acontece, e depois.
E depois chegam os remorsos, os sentimentos de culpa das amigas do peito de não terem aceitado o pedido para jantar, a revolta da família por não ter percebido, até de quem não era amigo, a tal sanguessuga cheia de si querendo beber este sangue fresco para fazer notar a sua insignificância.
As homenagens com textos de fazerem chorar as pedras da calçada de amigos de infância, do trabalho, das férias. E as palavras escritas pelas amigas? Se as palavras chorassem, tinha havido um dilúvio por causa das mensagens das amigas de plástico. Sim, de plástico, se fossem de carne e osso teriam ajudado a enfrentar a causa da dor que a dilacerou. As juras de protecção não são necessárias quando está metida num caixão. Se fossem corajosas, nunca escreveriam nada nos murais das redes sociais. Aí ela não vai ler. E quem fica está a borrifar-se para vocês, amigas de plástico.
A decisão de esconder por vergonha, por não querer parecer frágil ou uma falhada aos olhos dos pais e família próxima a vivência das situações de violência psicológica e física perpetradas durante relacionamentos conjugais, familiares e laborais, nesse dia, sem perceber o pavio da vela acende-se, a chama durará enquanto houver cera para derreter.
O pavio apagou-se, para ela e para todas as anónimas de ontem, de hoje e, infelizmente, de amanhã. Terminou. Esta mulher, em particular, fruto da educação que a preparou para a vida, foi a prisão dela. O pudor da família continua e com as aparências a fazerem a estrada da vida.
[É certo que os pais ou irmãos, por vezes, não são os primeiros a serem procurados para o desabafo ou para irem em socorro para salvar de um desespero. Mas, se não há certeza. O silêncio é o melhor. Acaba por cair no esquecimento. A dúvida subsiste sempre, porém a família não fica com o ónus de querer esconder uma triste verdade.]
Quando se pede respeito, primeiro tem de aceitar que não é só nas famílias dos outros que entram cordeiros vestidos com pele de lobo. Os poderosos com muitos tentáculos espalhados pelos sectores da estrutura da nossa sociedade não são invencíveis. Encorajar a denunciar quem vive estes pesadelos de abuso físico e psicológico.
Morre-se de tristeza;
Morre-se de anos de submissão castradora;
O coração dá os seus sinais de impaciência;
Morre-se mais jovem;
Morre-se, simplesmente.
Por vezes, as mulheres são as piores neste processo de aceitar que as humilhações, as faltas de respeito, as agressões verbais (e físicas) são para relevar. São para esconder.
"Olha a tua carreira";
"Olha os teus pais não merecem passar por esta vergonha";
"Olha os teus filhos vão ser gozados na escola."
"Olha isto", "olha aquilo" nunca chega "o olha avança", todo o tipo de violência deve ser denunciada.
A vela aparece, lembram-se? A cera acaba. E depois. Não vale a pena chorar. Nunca se sabe o dia de amanhã, porém até no morrer pode ser diferente.
As fragilidades em mulheres que demonstram, publicamente, serem de garra e firmes na postura de enfrentar as tarefas laborais que lhe são incumbidas e, associada a uma presença física bonita e cuidada, são ignoradas. Neste "não acredito que ela permitia", os manipuladores e os agressores exercem e impõem sem freio a sua forma de amar (cônjuge), de chefiar (trabalho) e de gostar (amigos/parentes). Mais, no círculo mediático, familiar e laboral são os lançadores de boatos: ela é uma desequilibrada, uma mentirosa, uma carente, não vês que é uma viciada nos comprimidos e no álcool? Assim é escrita a narrativa, todos assistem de camarote, apenas sentem comiseração quando o pavio da vela deixou de arder. A chama que se apagou trouxe o espírito de vingança e piedade só para se libertarem do peso na consciência e do fuzilamento da opinião pública e publicada.
Amanhã, sempre o amanhã, o esquecimento fará o caminho de ajuda para todos: família e amigos. A mulher fez-se cinza e os outros continuam com sangue nas mãos e a criar rios de lágrimas em quem não merece.
Todas temos histórias para contar de momentos conturbados na nossa vida se conseguimos superar sozinhas ou acompanhadas e por isso ter a capacidade de virar a página a estas experiências, inclusive termos o discurso "só nos fazem aquilo que nós permitimos", não nos dá o direito de julgar quem não conseguiu lutar contra o farrapo humano que nos tornamos quando nos abate uma tempestade violenta no alto mar e estamos dentro de uma canoa. Nem todos encararamos os problemas da mesma maneira e muito menos escolhemos as mesmas ferramentas para os resolver.
Todavia, que há mulheres que atraem só gente sórdida e brutamontes, isso é verdade. Temos de nos precaver, como? Não sei. Será como ter mais amor próprio, não nos iludirmos com a conversa mansinha e aos mínimos sinais de controlo e considerações depreciativas com muita frequência é cortar todos os laços? Pode ser um caminho.
Tenham muita atenção: não são as mulheres que estão a usufruir de baixa psicológica — e muito bem, sinal que recorreram a ajuda especializada — o grande perigo para elas próprias, mas aquelas mulheres que todos os dias se levantam da cama para ir trabalhar, têm o cabelo arranjado, estão bem maquilhadas e sublimemente bem vestidas com a casa organizada e as outras mulheres cujo orçamento financeiro não permite aquele visual saído das mãos de uma cabeleira, porém fazem a manicure em casa, com a indumentária bem passada a ferro e sempre com as tarefas da gestão da casa em dia. Desconfiem. O sorriso não pode ser um atestado de vitalidade, olhem para os olhos, eles não metem. São estes arquétipos de mulher que estão a vaguear na estrada da vida, são estas que precisam de muito colo para que a vela nunca se acenda e não haja sempre o mesmo triste desfecho.
