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Perspectivas & Olhares na planície

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P&O do Passado IV: Fraternidade

FRATERNIDADE

 

Nunca na Europa se falou com tanta segurança, como hoje, de «fraternidade, de concórdia entre os povos, de fusão das raças numa simpatia»; – e ainda há pouco em Paris, num congresso, um Moralista, um sábio, predizia, entre aclamações, que bem cedo da linguagem purificada dos homens desaparecia este vetusto e bárbaro termo – o estrangeiro.

De facto, porém, nunca entre as nações existiu, como neste declinar dos velhos regimes, tanta desconfiança, tanta malquerença, ódios tão intensos apesar de tão vagos. Não se encontram hoje na Europa dois povos genuinamente fraternais; – e nos países cujos interesses mais se interligam, as almas permanecem separadas. O Alemão detesta o russo. O Italiano abomina o Austríaco. O Dinamarquês execra o Alemão. E todos aborrecem o Inglês – que os despreza a todos.

São estes antagonismos, irracionais e violentos, tanto ou mais as rivalidades de Estado, que forçam as nações a essa rígida atitude armada em que elas se esterilizam e se enervam: - e hoje, diferentemente dos tempos antigos, o amor e o cuidado da paz está nos reis e nos povos o impulso para a guerra.

Isto provém de que o poder, ou a influência sobre o poder, passou das castas para as massas, das oligarquias para as democracias. Outrora as oligarquias, tornadas «cosmopolitas» pela educação, pelas viagens, pelas alianças, pela comunidade de hábitos e de gostos, pela similitude dos deveres da corte, pela tolerância geral que dá a cultura e pelas especiais afinidades de espírito que criava a cultura clássica, não odiavam nunca as outras nações – porque as outras nações se resumiam para elas nas outras oligarquias com se sentiam congéneres em todos os modos de viver, de pensar, de representar, de governar. As democracias, ao contrário, profundamente nacionais e nunca cosmopolitas, conservando com tradicional fidelidade os seus costumes alheios – apenas se conhecem (através das noções estreitas de uma instrução fragmentária) nas suas feições mais nacionalmente características e portanto mais irreconciliavelmente opostas: – e dessas diferenças que entre si pressentem ou constatam, lhes vem por instinto um mútuo afastamento e como uma antipatia etnográfica. O operário inglês, há cem anos, não conhecia sequer a existência do Russo. Hoje sabe, imperfeitamente, por leituras apressadas de jornais e de magazines populares, que o Russo é um homem que dele absolutamente difere no tipo, no traje, no idioma, nas maneiras, nas crenças… daqui uma primeira repulsão: e como sabe além disso vagamente, pela imprensa, que esse homem, tão dessemelhantemente de si, vai marchando sofre a India «para se apossar dos domínios da Rainha», enxerta sobre o seu antagonismo de raça a sua indignação de patriota, e chega a odiar o Russo, tão intensamente, que se não pode em Londres, num café-concerto ou num circo, desdobrar a bandeira da Rússia, sem que rompam as bancadas do povo apupos e clamores de cólera.

Por toda a parte assistimos assim ao desenvolvimento exaltado do indivíduo nacional. E, com o advento definitivo das democracias, haverá na Europa, não a universal fraternidade que os idealistas anunciam, mas talvez um vasto conflito de povos, que se detestam porque se não compreendem, e que, pondo o seu poder ao serviço do seu instinto, correrão uns contra os outros – como outrora, nas velhas demagogias gregas, os homens de Mégara de laçavam sobre os homens da lacónia, e toda a Ática se eriçava de armas, por causa de um boi disputado no mercado de Fila ou de uma bulha de rufiões nos grandes pátios de Aspásia.

 

Eça de Queirós, in Últimas Páginas (manuscritos inéditos)

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