Há coisas que me fazem confusão por mais que passem os anos por mim. De manhã cedinho, a enchente que se verifica nos bares dos supermercados. Tomam os pequenos-almoços carregados de açúcar, gordura e meias de leite de um leite qualquer ali estacionado por vezes horas em cima da mesa de preparação com o calor a espreitar para fazer das dele. E as crianças no ritual matutino de longos meses a ouvir-se clap, nem nas férias fazem pausa no refrigerante de sabor a pêssego. Devíamos ser estudados. Os emigrantes portugueses têm cafés espalhados por todos os sítios onde emigram, os seus clientes principais são portugueses. O português é assim gosta de fazer a primeira refeição fora de casa. Dizem que é para destravar a língua, os reformados, socializar trocando novidades da vida dos outros, os que vão "pegar" ao trabalho e ainda têm de deixar a criatura na escola ou no ATL; se for para deixar na casa dos avós, eles logo tratam de alimentar o netinho. Para ser sincera quero lá saber se iniciam o filho no mata-bicho com a família dos ICE TEA. Ou as pessoas com idade para terem juízo para não começarem o dia com aquelas merendeiras de massa folhada de queijo e fiambre do mais rasca ou quando não são os folhados de salsicha. Só de me lembrar fico nauseada. Mataram o paposseco, a sandes de queijo e fiambre sempre são bem melhor do que estes bolos de arroz e empadas de frango que são congeladas e não confeccionadas às cinco da manhã. O convívio não passa por nos enfiar numa pastelaria do nosso bairro ou de um supermercado. Até porque conversar de boca cheia não é educado. E tudo aos gritos sem percebermos bem o que a outra pessoa nos está a dizer, apressar o filho para engolir tudo rápido que o relógio já dá sinal que vão chegar atrasados. Cada vez mais, sinto que a minha rotina diária imposta pela minha mãe e depois continuei a seguir é de um marciano. Sujar a caneca e o pires, mesmo assim espalhar migalhas na toalha da mesa é digno de alguém que vem de Marte. Engolir os cereais no silêncio das vozes cruzadas é desprezado e por vezes criticado. Temos de acordar para a vida, começar logo com energia, dizem-me. Sim, claro, respondo. Já desisti de fazer compreender o simples: iniciar o dia com o movimento agitado de um café não é sinal saudável de uma vida social, é elevar os níveis de stress e criar a sensação que temos energia e estamos despertos para enfrentar a diária da vida.
A minha Mãe é a grande culpada de me sentir assim, deslocada do quotidiano matinal de muitas famílias. Não tenho inscrita no cartão de cidadão a naturalidade: de Marte. Bem podia ter.
Devemos conversar, estar com pessoas, mas fora deste ambiente insano de barulho de chávenas e repostas mal-humoradas e rabugentas ouvidas na mesa do lado. Não sei se tem razão de ser esta minha conclusão: para muitos casais com ou sem filhos, a salvação do casamento passa pelo frequentar destes espaços comerciais, não há pratos a voar amiúde por causa do palmier que é comido ao som: "Bom dia, Senhor Francisco é o do costume? Café na chávena escaldada e a empadinha..."
No fim de contas, se não fossem estes "centros de terapias" existiriam mais divórcios, mais violência conjugal, desentendimentos com os filhos, discussões sem sentido que muitas vezes são o fósforo para situações mais complicadas no convívio familiar. Nesta perspectiva, são uma bênção para muitos. As tais vidas de fachada que são subsidiadas por estes momentos fora de casa.
Eu fico no meu canto, na minha casa e eles na mesa do canto de uma pastelaria perdida numa rua com carros estacionados no passeio. E está tudo bem.
Por isso, pequenos-almoços numa cafetaria é carimbado com um Não redondo.
Desejo a todos vós uma semana mágica e que a azáfama da felicidade seja uma constante. Bebam e comam o que quiserem. Desde que a conta a pagar depois não seja na farmácia.